Quarta-feira, 25 de Abril de 2012

25 de Abril SEMPRE!


publicado por adormirnaforma às 01:35
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Quarta-feira, 18 de Abril de 2012

No 170º aniversário do nascimento de Antero de Quental

 

TENTANDA VIA


III

Sim! que é preciso caminhar avante!
Andar! passar por cima dos soluços!
Como quem numa mina vai de bruços
Olhar apenas uma luz distante!

É preciso passar sobre ruínas,
Como quem vai pisando um chão de flores!
Ouvir as maldições, ais e clamores,
Como quem ouve músicas divinas!

Beber, em taça túrbida, o veneno,
Sem contrair o lábio palpitante!
Atravessar os círculos do Dante,
E trazer desse inferno o olhar sereno!

Ter um manto da casta luz das crenças,
Para cobrir as trevas da miséria!
Ter a vara, o condão da fada aérea,
Que em ouro torne estas areias densas!

É, quando, tem temor e sem saudade,
Puderdes, dentre o pó dessa ruína,
Erguei o olhar à cúpula divina,
Heis-de então ver a nova-claridade!

Heis-de então ver, ao descerrar do escuro,
Bem como o cumprimento de um agouro,
Abrir-se, como grandes portas de ouro,
As imensas auroras do Futuro!

 

Antero de Quental

[Ponta Delgada, 18 de Abril de 1842-Ponta Delgada, 11 de Setembro de 1891]

 

publicado por adormirnaforma às 10:00
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Quarta-feira, 29 de Junho de 2011

Viagem ao passado desconhecido

Arrumando papéis, encontro um artigo de 2009, publicado no Notícias Magazine, e que acho interessante partilhar. A visita ao antigo Couto Misto será, com certeza, uma aventura maravilhosa. E um motivo para reflectir nas "tolices" que se fazem e nas opções que, ainda podemos fazer, para valorizar o nosso património.

 

 

 

COUTO MISTO

Durante séculos, existiu uma pequena república na fronteira dos reinos de Portugal e Espanha. O Couto Misto foi, até há 135 anos, um Estado autónomo que é hoje uma parte de Trás-os-Montes e outra de Galiza. Podia ter sido uma Andorra, ou um Mónaco, ou um San Marino mas, por estes dias, não é mais do que um vale desolado onde cabe um punhado de aldeias, duzentas almas e um segredo fechado a três chaves. Agora, há um empresário português que quer resgatá-lo do abandono. E transformá-lo em zona franca.

 

A República Adormecida

 

Texto: Ricardo J. Rodrigues

Fotografia: Hordl Burch/Kameraphoto

Notícias Magazine, 13 de Setembro de 2009

 

 

O vale do rio Salas é profundo, tão sulcado nos montes que, mesmo no Verão, aceita poucas horas de sol. É daquelas paisagens agrestes e ao mesmo tempo húmidas, impenetráveis, íngremes ao ponto de os únicos passos que pisam as suas encostas serem os dos lobos, das cabras selvagens, de um ou outro garrano fugido da manada.
Estamos no Couto Misto, 27 quilómetros quadrados de lameiros e matos bravos entre Portugal e Espanha. O melhor sítio para observá-lo é deste lado da fronteira, numas escarpas a meio caminho entre Tourém e Pitões das Júnias, no concelho de Montalegre. Está-se em Portugal e o que se avista é sobretudo chão galego. Mas, na verdade, até 1864, esta terra não era nem de uns nem de outros.

Três aldeias da Galiza – Rubiás, Santiago e Meaus. Duzentos e poucos habitantes. Um café. Quatro igrejas. Há um pedacinho de solo português, que não é mais do que um declive da serra do Gerês, no alto do qual foi instalado um parque eólico. O Couto Misto é basicamente isto e no entanto foi durante séculos uma república de pastores e rebanhos livres. As coroas portuguesa e espanhola admitiram desde a Idade Média privilégios excepcionais aos mistos até que, no século XIX, as populações votaram em referendo o reino que queriam integrar. Desde então, ovale do Salas foi-se esvaziando e hoje é uma terra envelhecida, comercialmente irrelevante, com muitas casas em degradação e uma infinidade de pastos abandonados. Aníbal Rodriguez Alvarez, 79 anos passados em Rubiás, explica tudo com um exemplo simples: “Desde miúdo até ter barba, a aldeia sempre teve mais de trezentas vacas. Pois bem, hoje são sete.”

Na raia, ainda há velhos que ouviram contar da boca dos avós as histórias do Couto Misto. Dos criminosos que enchiam aquele pedaço de mapa, escondidos da justiça peninsular. Dos terrenos arados em conjunto e de o gado de vários vizinhos sair junto para o monte, pastoreado por uma casa à vez. Dos Conselhos de homens e das eleições dos três juízes, um por aldeia. Do castelo que esteve na origem do Couto e que desapareceu para sempre, sem que ninguém se atreva a adivinhar-lhe a arcaica localização. Dos homens que vinham de fora procurar as noivas mistas, para poderem firmar raízes no terreno. Da arca fechada a três chaves onde se depositavam as leis da república.

 

 

A memória do Couto Misto foi investigada pelas universidades de La Coruña e de Trás-os-Montes e Alto Douro. Graças ao esforço dos historiadores, os limites do terreno estão demarcados, há placas sinaléticas a orientar o percurso do caminho privilegiado – por onde os comerciantes e contrabandistas podiam passar sem ser incomodados por nenhum dos dois reinos -, existe até uma estátua do último juiz de Santiago junto à igreja da terra. Mas muitas placas estão caídas ou em estado de ruína. Os placards informativos estão, na sua maioria, carcomidos pela inclemência climática do vale. O Couto Misto é uma memória cada vez mais perdida na bruma. E é precisamente contra isso que Joaquim Almeida quer lutar.

O director do principal hotel de Montalegre tem duas ideias para o Couto Misto: tornar o território uma zona autónoma em termos energéticos e ambientais e criar uma zona franca, com isenção de impostos para as empresas que aí criassem as suas sedes. “O Estado faz isso com os bancos e
com as grandes empresas. Por que não fazer o mesmo numa região que tem um argumento histórico para que tal aconteça?” Constata que o vale do Salas está cada vez mais desolado e que não seria difícil inverter a tendência. “Já discuti o meu projecto com os autarcas dos dois lados da fronteira e toda a gente acha que pode ser uma boa ideia.” Mas este, sabe-o Joaquim Almeida muito bem, não é um caso de poder local e que esperar pela intervenção de dois Estados pode demorar tempo. Mais uma vez, o futuro do Couto Misto está encaixado entre as vontades de Portugal e Espanha.

 

Na arca, que só abre com as três chaves dos trêsjuízes, guardavam-se as actas dos Conselhos,

 as resoluções unânimes e os documentos históricos

 

 

A arca era a lei

 

Uma imponência de pedra. A igreja paroquial de Santiago tem paredes lisas, com excepção dos vitrais que enrubescem um altar opulento, talhado do chão ao tecto em dourado. Tem um enorme crucifixo ao centro, uma figura de São Tiago à direita e uma Senhora do Pilar à esquerda. Mas o que é verdadeiramente surpreendente é que, galgando o púlpito e contornando o altar, se encontra uma escadaria, invisível aos olhos dos fiéis, que desce até uma câmara escondida no subsolo. Nessa cave, um espaço bafiento e mal iluminado, existe uma relíquia, uma arca antiga, de madeira de carvalho e com três fechaduras.

Dentro dessa arca estão reunidos os principais documentos que garantiram durante séculos a autonomia ao Couto Misto. Cartas dos reis de Portugal e Espanha. Mas também as actas de todas as resoluções tomadas pelos juízes da lei, os representantes eleitos de cada aldeia e governadores do Couto Misto. Esse cargo continua a existir, embora hoje tenha um papel meramente simbólico. Mas, tal como no passado, cada um dos três homens tem em seu poder uma das chaves que abrem a arca. Só as três chaves conseguem abrir o baú. O mesmo é dizer que nenhuma resolução era tomada se não fosse por unanimidade.

Cesário Gonzáles anda de roda de um tractor, nuns terrenos a norte de Santiago, a pôr estrume no pasto. É domingo e o juiz da lei da terra tem de se despachar, porque depois do almoço tem encontro marcado com José Pérez, seu homólogo em Rubiás. Sérgio Alvárez, o de Meaus, anda por Madrid a visitar os filhos e vai ter de faltar à reunião, o que significa que nenhuma decisão será por ora definitiva. Mas, na verdade, os homens não têm assuntos urgentes para debater. A única novidade é que a mulher de Cesário anda a costurar uma nova bandeira do Couto Misto, que a actual está mais podre do que uma árvore morta. O desenho é o mesmo de sempre: três estrelas dispostas em triângulo e no centro um brasão com três fechaduras.

“Trouxeste a capa, José?”, pergunta Cesário mal estaciona à porta de casa do amigo. O outro acena que sim – um cancro na laringe roubou-lhe a fala, mas estes homens conhecem-se tão bem que não precisam de palavras para conversar. Rumam a Santiago, a antiga capital do Couto Misto. “Além de estar no centro das três aldeias, é a que tem a maior igreja”, explica o juiz do pueblo enquanto desembrulha uma capa preta e a coloca sobre os
ombros. Na lapela, estão bordadas a vermelho as três chaves. “Meaus era a aldeia mais comercial, e hoje ainda é, porque tem um café. E Rubiás era a porta de entrada no Couto, porque está muito perto de Tourém, que é de Portugal, e de Randim, que sempre foi espanhola.”

Nas aldeias ainda há várias casas com um P, um E ou um X, esculpido na pedra, por cima da porta. As famílias decidiam se queriam ter nacionalidade portuguesa, espanhola ou mista (mixta, em galego) de uma maneira muito simples: no dia do casamento, o homem tinha de fazer um
brinde a um dos reis, diante de todos os vizinhos. A maioria, no entanto, não brindava e marcava o X na parede porque, em caso de delito, seriam julgados pelos três juízes do Couto. “A prisão era aqui, no forno do povo”, e Cesário aponta uma ruína de pedra invadida pelas silvas. “Os ciganos eram logo detidos, sem acusação nenhuma. Por isso é que existia um vigário de mês, que era um cargo de rotatividade mensal entre os homens do Couto, com função de vigiar o caminho privilegiado.”Siga-se então pelo caminho privilegiado. Parte de Tourém, atravessa Randim e cruza todo o Couto Misto. Apesar de percorrer os três territórios, as autoridades portuguesas e espanholas não podiam intervir
no trilho, mesmo que o viajante fosse perseguido por algum crime ou levasse contrabando. São seis quilómetros de liberdade, ladeados por carvalhos e
atravessados pelos pequenos afluentes do Salas. Alguns cruzeiros marcam-lhe a passagem. Joaquim Almeida, o empresário que quer tornar o Couto Misto uma zona franca, brinca dizendo que é uma espécie de via-sacra, “mas para o livre comércio e circulação”. Os mistos eram europeus antes de existir uma União. Em suma, uns visionários.

 

 

O país da memória

 

Entre Meaus e Santiago há um enorme lameiro, a que toda a gente chama “a veiga”. Foi ali que o povo do Couto Misto votou a integração na coroa espanhola, em 1864. O referendo foi cumprido segundo as leis do Couto. Um voto por família, de cajado no ar. Muitos queriam ficar do lado português mas “desde logo ficou decidido que as três aldeias haveriam de permanecer juntas, para preservar a identidade”, conta Cesário. Outras aldeias da raia passaram pelo mesmo processo, já que as linhas de demarcação fronteiriças eram ténues até ao século XIX. E, na verdade, só uma povoação escolheu ficar do lado de Portugal. É por isso que, olhando para o mapa, Tourém parece ficar na ponta de um dedo, rodeado de Galiza. Os mistos, esses, optaram por Espanha. Mas uma parte do antigo território, a encosta do Gerês, passou para as mãos de Lisboa.

“Os lameiros na zona de fronteira sempre foram pastados por vacas galegas e barrosãs”, garante Bento Barroso que, aos 87 anos, puxa dos galões de uma vida inteira passada em Tourém, a traficar contrabando entre Portugal e Espanha. “Ninguém conhece aquela zona tão bem como eu.” Seja. Durante décadas, o homem usou o caminho privilegiado (que já não oferecia outro privilégio senão o de um certo recato e do difícil acesso às autoridades) e os terrenos do que um dia foi o Couto Misto para carregar volfrâmio, azeite, bacalhau. A encosta do Gerês, que foi mista e hoje é portuguesa, nunca deixou de ser usada pelos rebanhos de Rubiás e Santiago. “Os de Meaus não, que esses estão mais longe.”

Na aldeia de Rubiás estão três velhos a imitar os lagartos. O sol presta-se a desaparecer, mas eles resistem até cair o fresco e a noite. Pastores durante
toda a vida, sempre levaram as vacas para Portugal e, garantem, aos olhos dos mistos a fronteira nunca deixou de ser um marco pouco natural. “Há quantos anos ninguém me perguntava pelo Couto Misto”, constata Enrique Veloso. “Sabe, o meu avô falava desses tempos, mas a partir dos anos 1930 foi uma conversa proibida, porque havia a Guerra Civil e esse assunto ia contra a unidade nacional.” “Ia contra o cabrão do Franco, essa é que é essa”, riposta logo Aníbal Alvárez, sentado num caixote e apoiado numa bengala, boina galega a cobrir a cabeça calva. “Em minha casa sempre me disseram que eu era misto, que o meu pai era revolucionário.”

E o pai dizia-lhe que, mesmo não sendo do seu tempo, ouvira as histórias dos homens que vinham de fora casar e estabelecer-se. “O meu avô falou de muitos assassinos espanhóis que vieram para aqui esconder-se, a pensar que não lhes acontecia nada”, começa José Rodríguez. “Mas vinham todos enganados, porque com um crime desses aos ombros eram logo recambiados para Espanha. Ou para Portugal, se fossem portugueses.” E gostariam de voltar a ser mistos, como antigamente. “Rapaz, nós somos mistos, sempre fomos”, Aníbal outra vez. “Na nossa terra, mandamos nós.”

 

Bento Barroso usou durante décadas o que um dia foi o caminho privilegiado para traficar contrabando

 

O terramoto de Lisboa destruiu os arquivos da fundação do Couto Misto e os primeiros relatos escritos datam do século XIII. Estas eram as terras da
Piconha, incluíam as três aldeias do Couto, mais Tourém e um castelo construído no Gerês, cuja localização exacta permanece uma incógnita. É certo que D. Manuel I mandou reconstruir a fortaleza em 1515 e que, três anos mais tarde, as populações de Rubiás, Santiago e Meaus se sublevaram contra o governador local, António Araújo, por causa da imposição de imposto no caminho privilegiado. O corregedor de Riba Côa, António Correia, e o alcaide-mor da Galiza, José Escalante, condenaram o governador português do castelo da Piconha e também o espanhol do vale do Salas, e acordaram que, a partir desse momento, o povo misto teria o direito a privilégios de autonomia para não ser vítima de novos abusos.

Até ao século XIX, a pequena república de pastores manteria as suas regras medievais inalteradas. Em 1810, a Junta de Armamento do Reino da Galiza recebeu uma carta do prior de Celanova, que está guardada no Arquivo Histórico da Província de Ourense, acusando o território do Couto Misto de acolher um “número infindável de moços fugidos à tropa e de criminosos de toda a espécie”. E essa queixa desencadeou o processo que levaria ao fim do Couto Misto, com a assinatura do Tratado de Lisboa em 1864.

 

Joaquim Almeida quer um estatuto de excepção fiscal no Couto Misto

 

 Hoje, o vale do Salas esqueceu a história dos homens e regressou ao seu estado primitivo, o de uma criação esmerada da natureza. É uma república esquecida, uma Andorra que nunca o chegou a ser. E, no entanto, ao falar com um grupo de velhos, homens nomeados juízes, contrabandistas ou empresários, percebe-se que a mística dos mistos ainda não sucumbiu totalmente. É o fim da tarde, o sol presta-se à despedida e inunda agora o vale do Salas de um tom dourado. Escalam-se as fragas a meio caminho entre Tourém e Pitões das Júnias, aquelas que garantem a melhor vista do Couto. E nessa altura, no exacto momento em que uma águia plana majestosamente ao longo do rio, percebe-se que a fúria de fronteiras e a cobiça territorial acabaram com um país para construir, no lugar dele, coisa nenhuma.

 


publicado por adormirnaforma às 21:42
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Quinta-feira, 23 de Dezembro de 2010

O Lago

 

Nesse Inverno o lago trouxe fome à povoação, e a família de Lucas, que era abastada e possuía seis barcas e as competentes redes novas, teve necessidade de recorrer ao ofício de olaria que todos tinham aprendido. Lucas era um homem magro e linfático que se dizia conhecer remédios para as febres. O país era acolhedor e fértil, mas havia regiões malsãs, sobretudo no começo da estação das chuvas. Lucas aconselhava deixar-se picar por nove abelhas e ungir os olhos com cera para que a febre do lago abandonasse aqueles a quem apoquentava. Ele era um pouco adivinho e curandeiro; sabia lendas velhíssimas do deus das Tormentas e do Dragão Ruyancas, e costumavam pedir-lhe presságios quando nascia uma criança.

Quando nevou pela segunda vez sobre os olivais, Maria deu à luz um menino que enfaixou com uma cinta de linho, mostrando-o depois aos pastores do seu amo Lázaro. Eles beberam nos canjirões de barro pela prosperidade da criança, e, embora Maria fosse pobre e órfã há muito tempo, um deslumbramento semelhante a uma paixão apoderou-se do seu espírito. Lucas tinha passado à sua porta dois dias antes do parto e dissera-lhe: Hanahana, mãe de deus, todos esperamos a piedade de ti. Ela corara de confusão e espanto. E vira-o afastar-se, leve e cintilante, em direcção ao lago. O sol dourava a cabeça de Lucas com um grande nimbo avermelhado. Era um sol sangrento e imenso, como ela jamais vira; o lago parecia sustentá-lo sobre as suas águas, e os pobres pardais, transidos de frio nas figueiras, deixaram ouvir um chilreio primaveril. Maria recolheu-se e orou: Ó Deus, laço que me ata à ribeira, faz com que o meu fardo não seja uma afronta para o homem. Embora a sua vida fosse pacífica e sem miséria, ela sentia-se às vezes inclinada a melancólicos pressentimentos. Era uma jovem robusta, de tez fina e olhos azulados que tomavam todos os cambiantes do lago. Estimavam-na pela sua índole modesta e piedosa, Lázaro o rico mandara que aprendesse a tecer com um mestre de Bactriana; e casara-a com José, o mais fiel dos seus operários. Na noite em que nasceu o menino, falou nele aos seus hóspedes e alegrou-se porque eles ofereceram presentes à criança. Com os seus mantos de lã bordados, os senhores dignaram-se entrar na morada de Maria e saudaram-na afavelmente. Eram homens velhos a quem tinham morrido filhos e que sabiam meditar sobre a fortuna sem deixar de pesar as culpas do próprio coração. Sorriam perante o quadro da jovem serva que tinha nos braços o seu primogénito, e sentiram-se comovidos. Deixaram ouro e alguns perfumes ao pé do berço pobre.

Quando pôde levantar-se, Maria levou a criança à beira do lago e esperou que Lucas viesse buscar barro para o seu trabalho de oleiro. Então mostrou-lhe o menino; mas não se atreveu a falar. Lucas prostrou-se na margem do lago, e parecia que juntava pequenas conchas com as mãos, como algumas vezes costumava fazer. Ma não. As lágrimas caíam-lhe pelo rosto, como as que chora uma videira cortada.

- Ele veio para que olhos claros se não escureçam nem os ouvidos abertos se fechem – disse, entre soluços. Maria assustou-se de repente, e fugiu com a criança apertada ao peito. A sua humilde vida de serva era agora penetrada de estranhas apreensões. Pediu a José para partirem; havia ali muitas desgraças, muitos lares estavam de luto, os pescadores deitavam-se sem cear nos seus tugúrios de canas.

- Sonhei que o menino morria, que os soldados traziam ordens de o levar. – E os seus olhos tomavam a cor funesta do lago agitado. Não comia, debruçava-se no tear como trespassada por uma dor lancinante. Sentia as mãos dormentes e afligia-a uma atroz dor na nuca. José consolava-a, uma esposa tão jovem parecia-lhe às vezes ingrata água à sua guarda. Um dia Lázaro, o amo, mandou que ele partisse, e levasse Maria e o menino. O semblante dele era severo, bem diferente daquela noite do nascimento, quando os hóspedes e os pastores tinham entoado cânticos e bebido vinho puro.

- Vai para as terras de Ham e espera que eu te chame – ordenou. E José disse:

- É grandioso o socorrer como os cedros do Líbano.

Assim deixaram as proximidades do lago e moraram longe dele durante vários anos. Lázaro morreu. Deixou dois livros de provérbios, mas a vergonha instalou-se na sua casa, pois constava que um parente se fizera recebedor de impostos. Quando Maria voltou a ver o lago, ele estava salpicado de barcas e brilhava ao sol de Março. Lucas recolhia as redes cheias de peixe, os tempos de fome pareciam ter passado. Reuniam-se os pescadores e censuravam a sinagoga e os ricos; mas logo sorriam sob a brisa dos hortos, olhando com ternura as donzelas que peneiravam nos pátios a farinha. Tudo era promissor e suave, grandes laranjais tinham crescido e estavam agora cobertos de flor. Maria viu o tear partido, a lançadeira tinha desaparecido; mas de resto tudo estava igual. Ela abriu as talhas da água e maravilhou-se de as encontrar vedadas e intactas. Lucas foi quem as fez no ano em que o lago foi escasso – disse ela. Pousou a mão na cabeça do menino: - Não saias daqui…

E o menino obedecia-lhe. Todos os dias enchia de água fresca as velhas talhas de barro. Ele florescia em alegria e parecia um menino semelhante a todos os outros; porém o fogo dos seus olhos não estava na natureza do lago, no clamor da guerra, nem na beleza do ouro ou do jade.

 

 

Agustina Bessa-Luís, Tríptico,

(in Natal (Editora Arcádia – 1978)


publicado por adormirnaforma às 18:37
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Terça-feira, 30 de Novembro de 2010

Fernando Pessoa

 

(13 de Junho de 1888-30 de Novembro de 1935)

 Última fotografia, tirada por Augusto Ferreira Gomes

 

 

O Quinto Império

 

Triste de quem vive em casa,

Contente com o seu lar,

Sem que um sonho, no erguer de asa,

Faça até mais rubra a brasa

Da lareira a abandonar!

 

Triste de quem é feliz!

Vive porque a vida dura.

Nada na alma lhe diz

Mais que a lição da raiz -

Ter por vida a sepultura.

 

Eras sobre eras se somem

No tempo que em eras vem.

Ser descontente é ser homem.

Que as forças cegas se domem

Pela visão que a alma tem!

 

E assim, passados os quatro

Tempos do ser que sonhou,

A terra será teatro

Do dia claro, que no atro

Da erma noite começou.

 

Grécia, Roma, Cristandade,

Europa - os quatro se vão

Para onde vai toda idade.

Quem vem viver a verdade

Que morreu Dom Sebastião?

 

Fernando Pessoa, in Mensagem 

 


publicado por adormirnaforma às 12:22
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Domingo, 25 de Abril de 2010

ACORDA, PORTUGAL!!!


publicado por adormirnaforma às 19:39
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Terça-feira, 9 de Março de 2010

Mar português...

 Carlos Alberto Santos: O Mostrengo

 

O Mostrengo
 
O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
À roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse, “Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?”
E o homem do leme disse, tremendo,
“El-Rei D. João Segundo!”

“De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?”
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso.
“Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?”
E o homem do leme tremeu, e disse,
“El-Rei D. João Segundo!”
 
Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes,
“Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um Povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!»
 
                                               Fernando Pessoa

 


publicado por adormirnaforma às 18:44
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Quinta-feira, 31 de Dezembro de 2009

2010


publicado por adormirnaforma às 11:25
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Sábado, 25 de Abril de 2009

Cumprir ABRIL para cumprir PORTUGAL!


publicado por adormirnaforma às 00:22
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Quarta-feira, 22 de Abril de 2009

DIA DA TERRA todos os dias

 

Alguém pode ser feliz nesta loucura?

 

 


publicado por adormirnaforma às 16:05
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